John Freelancer em "O Preço da Produtividade"
- Leo Ridire
- há 1 dia
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“Como toda sociedade já vista, a civilização galáctica humana nasceu, encontrou seu apogeu, prosperou e depois declinou, deixando diversas colônias espalhadas e segregadas por toda a Via Láctea. Este era o caso do exoplaneta Pikex, localizado nos confins da galáxia, um lugar que foi esquecido por todos fora daquele sistema estrelar e um lugar que esqueceu a todos em seus milênios de isolamento...”

O Sol branco ardia sob a dunas do deserto de Ultun tostando a superfície com seu calor impiedoso. Sob as areias escaldantes funcionava uma colônia de fundição pesada conhecida como Kudrum-Sub. O ar ali embaixo era denso, quase sólido, impregnado com o cheiro acre de enxofre, óleo diesel queimado e o estalo seco do ozônio estático. A iluminação de emergência era de um tom âmbar industrial doentio, oscilando erraticamente contra as paredes de metal, projetando sombras longas e disformes no teto e nas paredes.
John Freelancer sentia a vibração mecânica subir pelas solas de suas botas pesadas antes mesmo que o elevador de carga industrial completasse sua descida profunda. Os cabos de aço grossos rangiam na escuridão acima, um som longo e metálico que ecoava pelo poço vertical. John permaneceu imóvel no centro da plataforma suspensa, o corpo relaxado com os braços caídos ao lado do corpo.
Quando a enorme estrutura de ferro finalmente bateu contra o chão do nível principal, levantando uma nuvem espessa de poeira de carvão e fuligem, John deu o primeiro passo à frente. O estalo seco sob seu calcanhar quebrou a monotonia dos geradores geotérmicos. Ele olhou para baixo por um breve instante e reparou que sua bota tinha esmagado uma ampola de vidro descartada. Em seu interior, os resíduos secos de um estranho líquido vermelho brilhavam opacos sob o reflexo âmbar. Uma droga que ele já havia visto antes quando enfrentou os Hard-Technos na cidade de Roxfot quando iniciou sua carreira de Freelancer.
John ajeitou os óculos escuros arredondados no rosto. As lentes espelhadas refletiram o giro de uma lâmpada de aviso distante. Ele manteve as mãos nos bolsos do casaco, os olhos invisíveis examinando o corredor de metal que começou a percorrer, ignorando o resto da substância na qual havia pisado.
O silêncio que governava a colônia não era o da paz, era o da exaustão. A fundição estava deserta, mas as marcas do colapso eram recentes. Sinais de barricadas rompidas por força bruta pura destruíam as junções das pesadas portas hidráulicas. Placas de aço maciço arrancadas das paredes exibiam sulcos profundos e assustadores; marcas de dedos humanos que haviam cavado o ferro até que as unhas se desprendessem da carne sob o efeito da fúria química.
Havia corpos caídos na penumbra dos nichos de manutenção — operários vestindo uniformes de lona cinza rasgados pelo súbito e violento crescimento muscular. John não se deteve para examiná-los. Seu passo era constante, seco, perfeitamente alheio à desolação que engolia o complexo subterrâneo que muito mais se assemelhava a uma necrópole do que a uma cidade-indústria.
De algum lugar profundo nos túneis periféricos secundários, além do zunido rítmico de máquinas trabalhando, um som diferente ecoou. Não era o grito de um homem, embora tivesse nascido de uma garganta humana. Era um urro gutural, agudo, misturado com o estalo terrível de dentes que se quebravam pelo excesso de pressão maxilar. Um som puramente animalesco, carregado de uma agonia psicológica indescritível.
O vento quente do sistema de ventilação falho moveu os cabelos de John. Ele não sacou suas armas. Apenas continuou caminhando com passos estoicos sobre a poeira industrial, seguindo a trilha de ampolas quebradas na direção do setor de alta segurança. Ele estava ali para cumprir um contrato e a pessoa que precisava resgatar provavelmente o aguardava logo adiante.
As luzes do setor de segurança máxima eram brancas, mas o revestimento de policarbonato dos refletores estava tão impregnado pela fuligem industrial que o efeito final continuava doentio e opressor. John seguiu pela linha amarela gasta pintada no piso de ferro fundido, o indicador visual que levava ao coração administrativo de Kudrum-Sub. O urro gutural que ouvira momentos antes nos túneis não se repetiu, substituído agora pelo som rítmico e pesado de um pistão pneumático avariado que batia metal contra metal em algum nível inferior.
A espessa porta hidráulica do bunker de comando exibia marcas profundas de impactos externos. Alguém ou algo tentara entrar ali usando ferramentas de mineração pesadas. Os sulcos na liga de titânio eram largos, irregulares e violentos. John aproximou-se do painel óptico ao lado da entrada. O visor de cristal líquido estava estilhaçado, mas o intercomunicador analógico de emergência ainda chiava com estática de baixa frequência. Ele pressionou o botão desgastado com o polegar enluvado.
— Freelancer. — Disse John com sua voz grave que cortou o ruído da linha.
Houve um segundo de silêncio tenso do outro lado, seguido pelo estalo mecânico de travas pesadas correndo por dentro da blindagem. A porta recuou três centímetros e correu para o lado com um chiado sibilante de ar comprimido acumulado. O ar que escapou de dentro do bunker era artificialmente frio, mas carregado de um odor forte de ozônio e suor rançoso.
Vance era um burocrata esguio com a barba por fazer e uma expressão apavorada no rosto. Ele estava de pé atrás de uma mesa de conferências metálica, com uma pistola de plasma antiga e mal cuidada tremendo em sua mão direita. Suas vestes de linho sintético bege, outrora impecáveis como convinha a um supervisor de colônia corporativa, estavam manchadas e empapadas de suor no pescoço. Os olhos do homem saltavam das órbitas, vermelhos pela falta de sono e fixos nos óculos escuros arredondados de John.
— Graças ao bom Deus você chegou! — Vance sibilou, abaixando a arma devagar, embora os nós de seus dedos continuassem brancos de tensão e o braço trêmulo. Ele limpou a testa com a manga da camisa, deixando um rastro de graxa na pele pálida enquanto pressionava um botão para a porta pneumática se fechar novamente e trancar a dupla ali dentro. — Achei que os malditos operários tivessem pegado você no poço do elevador. Eles estão subindo dos níveis de fundição. Estão quebrando as divisórias com as mãos nuas. É desesperador! Está tudo fora de controle! Alguns deles viraram canibais!
John não respondeu. Caminhou para dentro da sala com passos lentos, as botas pesadas ecoando no piso flutuante de aço. Seus olhos invisíveis examinaram o ambiente: fileiras de monitores exibiam estática cinzenta intercalada com a visão de corredores vazios obstruídos por caixotes revirados. Em uma das telas menores, um gráfico de barras oscilava em um tom escarlate de aviso, indicando a queda iminente queda na produção daquela fundição.
— O tempo acabou para este lugar — Afirmou o burocrata, andando a passos temerosos, contornando a mesa, com a voz subindo um tom a cada frase. Ele pegou um pequeno estojo cilíndrico de metal escovado e o empurrou na direção de John. — A diretoria já ativou os protocolos de quarentena. Eles vão lacrar as saídas de Kudrum-Sub por fora em menos de uma hora. Ninguém entra, ninguém sai. Se ficarmos aqui, seremos sepultados vivos na rocha junto com esses operários malucos!
John olhou para o estojo. O visor digital na lateral indicava uma quantia em créditos ao portador alta o suficiente para comprar um cargueiro de médio alcance em qualquer cidade daquele deserto desolado. Um pagamento absurdo para um trabalho de extração simples.
— Qual é o serviço? — Indagou John com sua fala curta, desprovida de curiosidade ou julgamento.
— O mesmo que te falei pela vídeochamada! — Disse Vance nervoso, batendo com a pistola no próprio peito, encarando seu salvador com uma mistura de pânico e a arrogância de quem estava acostumado a mandar. — Você vai me garantir um caminho seguro até o hangar privado do nível quatro. Meu transporte de evacuação está pronto. Mas antes... — Ele apontou para o console principal, onde um disco mestre brilhava com uma luz azul intermitente. — Preciso daquele disco. É o núcleo de tudo. Os relatórios analíticos de refinamento químico do composto. O único jeito de salvar o meu emprego é entregar esses dados para a diretoria! Sem isso, vai ser o fim da linha pra mim...
John aproximou-se do terminal de dados. O reflexo das linhas de código em cascata passava pelas lentes espelhadas de seus óculos escuros. Na tela esverdeada, as fórmulas médicas descreviam os efeitos da dosagem cumulativa do composto Berserker no sistema nervoso dos trabalhadores: “hipertrofia muscular acelerada, degradação severa do lobo frontal, supressão total dos receptores de dor e comportamento territorial animalesco”. Havia notas de rodapé assinadas pelo próprio Vance nas margens digitais. “Aumento de doze por cento na eficiência produtiva da fundição durante o terceiro turno. Margem de descarte neurológico dentro do previsto.”
O burocrata tinha deliberadamente injetado a droga Berserker na população de trabalhadores sob o pretexto de que era uma vacina. Ele tinha transformado seus próprios homens em feras para bater as metas de mineração da corporação para o qual trabalhava.
O Freelancer estendeu a mão e pegou o estojo de créditos sobre a mesa, guardando-o no interior do sobretudo com um movimento metódico e calmo, enquanto inclinava a cabeça na direção do contratante.
— Vou te levar até o nível quatro. — Declarou John com a voz perfeitamente seca, sem qualquer traço de emoção. — Nada mais.
— É o suficiente. — Afirmou Vance soltando um suspiro trêmulo e nervoso. — Aqueles animais lá fora não importam mais. Esses maníacos que morram quando isso tudo for selado! Pegue o disco. Vamos sair pelos túneis de ventilação por trás da caldeira principal. É o caminho mais rápido.
John puxou o disco mestre da fenda magnética do console. O terminal emitiu um bipe agudo de desconexão e a iluminação principal do bunker apagou-se instantaneamente, deixando o recinto imerso na penumbra âmbar das luzes de emergência que giravam no teto.
Antes que Vance pudesse dar o primeiro passo em direção à saída traseira, o som metálico no corredor mudou. O pistão avariado parou. Em seu lugar, batidas pesadas, desordenadas e frenéticas começaram a ecoar contra a blindagem da porta pneumática. O aço maciço cedeu dois centímetros para dentro com um estalo violento de rebites estourando sob força bruta pura.
Vance soltou um grito curto, recuando até bater as costas contra os servidores principais. John permaneceu imóvel no centro da sala, sua mão direita descendo calmamente até o cabo da espada curta presa às suas costas. O silêncio estoico do mercenário era a única coisa que ainda não havia quebrado em Kudrum-Sub.
O ar sibilou quando a trava secundária da porta pneumática estourou, projetando um rebite decapitado contra o console repleto de botões. A porta de aço se deformou para dentro, revelando a silhueta hipertrofiada do primeiro operário. A lona cinza de seu uniforme estava colada ao peito por uma mistura de suor e o óleo vermelho que vazava dos poros rompidos pela pressão muscular. Os olhos dele, totalmente vidrados, com as pupilas dilatadas e totalmente focadas em Vance.
John não esperou que a porta caísse por completo. Com um movimento limpo, sacou a espada curvada que se desdobrou do cabo no mesmo instante em que cortava a penumbra âmbar em um arco ascendente, preciso e silencioso. O primeiro infectado avançou com um rugido seco, as mãos estendidas como garras cegas, mas o golpe de John foi mais rápido. A lâmina encontrou o ponto de junção entre o pescoço e a clavícula, cortando os tendões que sustentavam a força bruta do braço direito do homem. O operário tombou para o lado com o peso do próprio impulso, colidindo contra a parede de metal.
— Foge. — Ordenou John, agarrando o administrador pelo colarinho encharcado e empurrando-o na direção da escotilha de manutenção traseira.
Eles mergulharam na escuridão dos túneis de ventilação secundários enquanto o bunker era invadido pelo resto da horda. Atrás deles, o som de grunhidos humanos e o quebra-quebra dos equipamentos ecoava de modo aterrorizante.

O calor parou os pulmões de Vance assim que eles romperam a grade de saída no nível inferior. O salão da caldeira geotérmica principal era repleto de ferro fundido e fumaça viva. Abaixo das passarelas gradeadas, tanques massivos contendo toneladas de minério derretido brilhavam com uma luz escarlate incandescente, projetando um calor que distorcia o horizonte visual. O ar ali embaixo queimava, tinha gosto de poeira de ferro, mas o que mais aterrorizava o burocrata eram os sons de grunhidos guturais e animalescos que podiam ser ouvidos em qualquer lugar.
— O hangar está logo atrás daquela plataforma de controle! — Arquejou Vance, apontando com a pistola de plasma trêmula para a passarela central suspensa sobre os tanques de fusão.
No meio do caminho, bloqueando a única junta de dilatação que levava ao setor de evacuação, estava o mestre de obras. O composto Berserker puro, injetado diretamente nas veias do pescoço, havia transformado o homem em uma massa hipertrofiada de carne fibrosa e ossos expandidos. Ele tinha quase dois metros e meio de altura, os ombros deslocados para a frente em uma postura simiesca. Suas mãos seguravam uma enorme marreta hidráulica industrial de trinta quilos como se fosse um graveto. O monstro exalava o vapor acre do estimulante evaporando pelo próprio hálito.
Quando viu os dois, a criatura bateu com a base da marreta no chão da passarela. A vibração correu pelo ferro sob os pés de John e Vance.
John não emitiu um ruído, nem sequer mudou sua expressão facial que parecia congelada mesmo diante daquele terror todo. Ele tomou a frente com seus óculos escuros ainda refletindo o brilho do minério liquefeito e incandescente abaixo da passarela.
O mestre de obras avançou. A marreta desceu em um corte vertical que partiu o corrimão de aço e abriu um sulco na estrutura flutuante. John moveu-se lateralmente com sua velocidade inumana transformando-o em um borrão cinzento às vistas do mestre de obras. A lâmina de sua espada curta riscou o flanco do monstro, mas a musculatura hipertrofiada estava tão densa que o corte apenas liberou um jorro de sangue escuro e espesso, sem fazê-lo recuar.
A criatura girou sobre o próprio eixo, desferindo um soco com o braço livre. O impacto pegou o ombro esquerdo de John, arremessando-o contra os cabos de suspensão da passarela. O estalo do impacto foi seco. John não soltou um único gemido. Ele recompôs a postura instantaneamente, embora estivesse zonzo do impacto.
O monstro ergueu a marreta para o golpe final. John não tentou desviar para os lados. Ele avançou direto contra as pernas da criatura. Deslizando pelo piso de ferro coberto de fuligem, o Freelancer passou por baixo do arco do golpe e cravou a espada curta diretamente na parte de trás do joelho esquerdo do mestre de obras, girando a lâmina para romper a patela. A criatura urrou com o peso do corpo cedendo para trás enquanto a perna mutilada falhava.
Com agilidade, John agarrou um dos ganchos de carga industriais que pendiam das roldanas superiores, saltou sobre o ombro do gigante e envolveu o cabo de aço grosso ao redor do pescoço do monstro. Usando o próprio peso e sua força melhorada, John chutou as costas da criatura, impulsionando-a em direção à borda desprotegida da passarela.
A marreta foi a primeira a cair no abismo. Um segundo depois as roldanas com o cabo de aço rangeram e quando se quebraram, o pesado mestre de obras despencou no tanque de minério derretido. Houve um grito, mas não era necessariamente de dor, era um urro grotesco de uma pessoa cuja mente estava dominada pela droga. No instante seguinte apenas o som pesado da carne sendo consumida pelo calor absoluto do ferro líquido foi ouvido, seguido por uma labareda de gordura que subiu até o teto da fundição.
John pousou de pé, o sobretudo negro ligeiramente chamuscado nas pontas. Ele guardou a espada cuja lâmina acabara de recolher para dentro do cabo e olhou para Vance que assistia ao combate estático, com a boca aberta. O mercenário não disse uma palavra, virou-se e passou a seguir o seu caminho, sendo prontamente seguido pelo burocrata que apertou seu passo para ficar o mais próximo possível de seu protetor.

O hangar privado estava imerso em um silêncio sepulcral. A cápsula de escape tinha o formato de uma ogiva, fabricada em liga leve e acoplada a um trilho magnético vertical. Vance correu tropeçando nos próprios pés até a escotilha da cápsula, digitando freneticamente o código de ignição.
A porta da ogiva abriu-se com um suspiro hidráulico. Vance jogou-se para dentro do estofado sintético, mas antes de fechar a tranca, ele estendeu a mão pálida na direção de John com seus olhos cheios de ganância.
— Se quiser entrar na capsula de fuga, me entregue o disco mestre! Eu preciso dele! A diretoria Aethon Vektor vai me dar um bônus substancial por essa fórmula!
John aproximou-se da escotilha. Retirou o disco de brilho azulado do bolso do sobretudo. Vance esticou os dedos, quase babando de antecipação. Com um movimento forte e seco, John segurou Vance pelo peito e o empurrou definitivamente para o fundo do assento da cápsula
John deu as costas para a cápsula com a comporta ainda aberta. Vance, ainda zonzo do impacto apontou sua pistola de plasma para o mercenário, mas o Freelancer mal virando em direção a ele sacou sua própria arma e atirou, arrancando da mão de seu protegido a pistola.
O burocrata gritava e reclamava, sentindo a dor da mão chamuscada enquanto John caminhou até a borda do poço de ventilação que dava direto para as caldeiras em chamas abaixo do hangar. Ele olhou para o disco mestre em sua mão por um segundo. As linhas de código com o custo humano da colônia estavam no interior daquele artefato cujo brilho azul refletia nas lentes arredondadas de seus óculos escuros. Ele não hesitou e o soltou dos dedos. O disco azul despencou na escuridão, desaparecendo no fogo purificador da caldeira.
Sem dizer uma palavra, voltou para o interior da capsula com passos firmes, impondo-se como uma parede contra Vance que projetava uma sombra densa sobre o sujeito pequeno de forma intimidativa. Não havia qualquer argumento que o burocrata pudesse dizer contra a imposição física do mercenário que bateu com palma da mão no botão de fechamento interno fazendo com que a blindagem de policarbonato descesse, isolando os dois no interior da capsula de fuga.
John encarava o supervisor com uma frieza silenciosa, enquanto ele, ainda jogado no chão e reclamando da dor em sua mão chamuscada, apenas lançava um olhar raivoso para o mercenário. O Freelancer apertou o botão do console de emergência que ligava o trilho magnético. Os estores de segurança romperam-se e a cápsula foi disparada para cima com um estrondo pneumático semelhante a um tiro que a fizeram percorrer o seu caminho em direção à superfície desértica levando os dois para a segurança.
Abaixo, os alarmes de colapso final de Kudrum-Sub começaram a soar, uma sirene melancólica e contínua que anunciava o fechamento das comportas na superfície. A cidade-fábrica logo estaria selada para sempre.

Ao irromper a superfície do deserto de Ultun a cápsula foi arremessada para o alto em uma velocidade avassaladora ao mesmo tempo em que a comporta por onde tinha passado se fechava definitivamente. O pouso, no entanto, acabou sendo suave, desacelerado pelos paraquedas e amortecido pelas dunas de areia fofa.
A comporta com blindagem de policarbonato se abriu automaticamente, libertando os dois do confinamento para o calor escaldante do deserto. Vance foi o primeiro a sair, tropego e enfurecido.
— Você! — Urrou o burocrata apontando o dedo para a figura imponente que precisava abaixar a cabeça para passar pela comporta. — A droga do contrato era pra você me proteger e a porcaria do disco! Como ousa destruir aqueles dados?! Como ousa mexer com uma Corpe?!
— O serviço era te levar em segurança até o nível quatro. — Replicou John num tom seco, desprovido de qualquer entonação. — O contrato foi cumprido.
Ignorando a fúria do supervisor, John simplesmente virou as costas e começou sua caminhada pelo deserto, desaparecendo por entre as dunas, seguindo no sentido oposto dos veículos blindados da Aethon Vektor que se aproximavam ao longe.



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