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John Freelancer em "O Expresso de Koral"

  • Foto do escritor: Leo Ridire
    Leo Ridire
  • há 3 dias
  • 15 min de leitura


Conto de Space Western


“Como toda sociedade já vista, a civilização galáctica humana nasceu, encontrou seu apogeu, prosperou e depois declinou, deixando diversas colônias espalhadas e segregadas por toda a Via Láctea. Este era o caso do exoplaneta Pikex, localizado nos confins da galáxia, um lugar que foi esquecido por todos fora daquele sistema estrelar e um lugar que esqueceu a todos em seus milênios de isolamento...”



O Expresso Koral


A cidade industrial de Koral cheirava a ferro oxidado e ozônio queimado. Era um emaranhado denso de chaminés que cuspiam fumaça negra contra o céu alaranjado do crepúsculo entrecortado por trilhos suspensos onde trens magnéticos zuniam apressadamente a todo tempo.

Já fazia alguns dias que John havia chegado àquela cidade industrial e se hospedado no Bar Freelancer local até ser contratado para um serviço. Era o início da noite e ele caminhava pela plataforma de embarque da Estação Central, suas botas pesadas fazendo um som abafado no piso gradeado. O vento quente que soprava das fornalhas da cidade agitava a bainha de seu sobretudo negro e surrado. Sua silhueta contava com um chapéu igualmente preto com abas largas e seus olhos sempre escondidos por óculos escuros de lentes arredondadas e reflexivas.

- Você está atrasado, Freelancer. - Disse uma voz feminina, cortante e fria, vinda das sombras de um contêiner de carga.

John parou, virando seu rosto lentamente. Saindo da penumbra estava uma figura que ele conhecia. Cabelos loiros curtos, olhos azul-turquesa brilhantes e um físico atlético. Ela vestia um traje tático cinzento, com duas submetralhadoras presas aos coldres nas coxas.

- Fae. - A voz de John saiu grave e seca, um reconhecimento simples.

- Me chame de 615. - Corrigiu ela, ou talvez estivesse apenas lembrando a si mesma. Seu tom era diferente da última vez que se viram nas ruínas da GenX. Havia menos emoção e uma dureza calculada. – O gerente disse que precisava de dois de nós para esta carga. Não sabia que o outro seria você.

Como de costume, John nada disse, apenas voltou a seguir seu trajeto na direção do escritório do gerente de logística da Ferrovia Koral, um homem baixo e suado que limpava a testa com um lenço encardido quando os dois Freelancers adentraram no recinto.

- Ótimo, ótimo, os dois estão aqui. - O homem apontou para um trem blindado e escuro que era possível ver pelas janelas do recinto. A máquina flutuava silenciosamente sobre os trilhos magnéticos com grande imponência. - Aquele é o Expresso Fantasma. Vai cruzar as Terras Baldias até o setor de mineração. O que tem dentro não importa. O que importa é que a Ferrovia Koral paga muito bem pelo sigilo absoluto.

- A regra é clara: sem testemunhas. Se virem alguém bisbilhotando a área restrita ou qualquer coisa que ameace o sigilo da carga antes da partida... eliminem! Sem perguntas. Entendido? – Disse o gerente num tom de voz baixo enquanto olhava para os lados com paranoia.

John permaneceu imóvel, sem assentir. Fae, por outro lado, travou o maxilar e confirmou com um aceno.

- O contrato será cumprido à risca. – Disse ela num tom determinado.

- Ótimo! Tenho algo que vai ajudar vocês então! – Afirmou o gerente num tom que era quase animado enquanto mostrava dois pares de botas para os Freelancers. – Elas têm sola magnética consegue prender vocês até mesmo do lado de fora do trem, mesmo que ele esteja em velocidade máxima!

Após entregar os pares de botas, o gerente se levantou e acompanhou a dupla até a porta da sala e a trancou quando eles saíram, deixando-os a sós na plataforma enquanto o barulho dos pistões hidráulicos sibilava e inundava o ambiente. O que chamou a atenção do par de Freelancers foi o barulho quase imperceptível de uma lata caindo atrás de uma pilha de caixotes de suprimentos que ainda seriam embarcados no trem.

Fae reagiu com uma velocidade que beirava o inumano, avançando até os caixotes próximos do vagão principal já com uma das mãos pronta para sacar uma de suas submetralhadoras, pronta para eliminar quem quer que fosse. John a seguiu mas com passadas pesadas e largas, porém, sem pressa.

Atrás dos caixotes de suprimentos, um garoto local, magricela e todo sujo de graxa estava encolhido, em pânico, segurando uma pequena ferramenta improvisada. Não era um espião corporativo, era um rapaz que mal beirava os quatorze anos e que pretendia roubar a comida estocada nas caixas.

- Você não devia ter vindo aqui, garoto! - Afirmou Fae com uma voz robótica, sem sentimentos. Ela sacou a arma e a apontou com o cano energizado diretamente para a testa do garoto, pronta para puxar o gatilho e disparar uma rajada letal. - Ordens são ordens, nada pessoal.

O menino arregalou os olhos, paralisado pelo medo. John entrou na frente do cano sem se intimidar, ficando entre Fae e o garoto. A Freelancer tentou mudar o ângulo para atirar no rapaz, mas foi inútil, pois o homenzarrão sempre se colocava no caminho com movimentos curtos e definitivos.

- Você está violando o contrato, John! - Protestou Fae com a voz perdendo a frieza. - A ordem foi clara: eliminar suspeitos! Se não cumprirmos as especificações, não somos Freelancers, somos amadores!

- Não me contrataram para matar garotos. - Rebateu John, permanecendo entre ela e seu alvo. - O contrato é a carga. O garoto não é a carga.

- Ele viu o trem! Ele é uma variável de risco! - Insistiu Fae que parecia estar lutando contra algo dentro de si mesma. - Eu não vou falhar!

Ela atacou, mas não foi um golpe carregado de raiva, mas uma sequência apurada e letal de movimentos que buscavam tirar o Freelancer da frente de seu alvo e disparar sua arma contra o garoto. Em uma mão ela portava a submetralhadora, na outra sacou uma faca que visava atingir o homenzarrão nas articulações para obrigá-lo a sair.

John não sacou suas armas, preferindo manter as mãos livres. Quando a lâmina de Fae desceu buscando seu ombro, ele girou o tronco com uma velocidade maior que a dela, deixando o aço cortar apenas o ar. Na sequência ele segurou o pulso da mão esquerda dela, a mesma que portava a submetralhadora, impedindo-a de atirar no rapaz e empurrando-a para trás com uma força que não era a de um humano comum.

Fae não se deixou abater e antes de cair no chão fez um rolamento para se recuperar e voltar para o combate. Ela saltou mais alto do que uma alguém seria capaz e chutou o peitoral de seu adversário com uma força que teria quebrado as costelas de uma pessoa comum, mas John apenas deu dois passos para trás, mantendo-se ainda entre ela e o jovem.

- Você tem escolha. - Disse ele, sua postura defensiva, mas inabalável.

- Escolhas trazem dor! - Gritou ela, atacando novamente. Dessa vez, ela fintou um golpe baixo e saltou, tentando acertar o rosto dele.

John bloqueou o chute com o antebraço, sentindo o impacto vibrar em seus ossos reforçados. Ele a empurrou para longe, não para ferir, mas para criar distância. Eles se encararam na plataforma, dois guerreiros geneticamente modificados que sobreviviam à margem da sociedade.

Fae estava pronta para atacar novamente, quando o mundo ao redor deles explodiu. Uma detonação ensurdecedora estilhaçou o portão de saída da estação, por onde o trem passaria em breve para deixar a cidade. O impacto jogou o garoto para longe, em direção à beirada da plataforma, onde os trilhos magnéticos zumbiam com energia letal.

John reagiu por instinto. Ele ignorou Fae e se lançou em um mergulho, agarrando o colarinho da camisa do rapaz segundos antes dele cair nos trilhos eletrificados. Em seguida, com uma força invejável que era capaz de segurar o adolescente com um único braço, o arremessou de volta na plataforma.

Fumaça e poeira tomaram o local e o garoto finalmente correu em desespero, enfiando-se em um pequeno buraco o qual tinha usado para invadir a plataforma sem passar pela segurança. No destruído portão de saída, em meio a fumaça da explosão, três motos invadiram a estação pilotadas por figuras musculosas que usavam máscaras de oxigênio no rosto e se protegiam com armaduras de sucata.

- Ladrões de Trilhos! - Berrou o gerente da estação ao abrir a porta da sua sala como quem pretendia fugir do lugar. - Estão aqui pela carga!

John olhou para Fae, que ainda estava em postura de combate com a faca em uma mão e a submetralhadora na outra, mantendo um olho no trio de recém-chegados e o outro no Freelancer com quem estava lutando até então.

Os invasores seguiram na direção do trem e John passou a ignorar a adversária, apressando o seu passo em direção ao Expresso Fantasma. Fae respirou fundo indignada e guardou a faca, seguindo ao lado dele enquanto sacava a segunda submetralhadora, portando uma em cada mão.

O trem blindado soltou um apito demonstrando que não pretendia permanecer na estação até o ataque acabar, avançando com um solavanco metálico que fez o chão tremer quando os gigantescos eletroímãs foram ativados. A composição começou se deslocando devagar, mas era certo de que logo ganharia velocidade.

John correu ao lado do trem em movimento com suas botas batendo pesado no piso metálico até que ele saltou, agarrando uma escada lateral de ferro frio com a penas uma das mãos. O vento da aceleração fez o seu sobretudo esvoaçar violentamente enquanto ele abria uma porta para ingressar no interior do vagão.

Ele olhou em volta e viu Fae adentrar na mesma composição que ele, apenas se utilizando de outra porta. O trepidar do vagão aumentava cada vez mais indicando que já tinham deixado a estação e que agora ele aceleraria cada vez mais, flutuando pelos trilhos magnéticos.

- Se eu tivesse atirado no garoto, nada disso estaria acontecendo! Ele claramente era um espião! – Reclamou Fae enfurecida. – O que te deu, heim?!

- Não mato inocentes. – Replicou John que passou a olhar a sua volta como se estudasse o vagão.

Ele prontamente seguiu até uma escada lateral e escalou-a abrindo um alçapão no teto. Do lado de fora, o vento soprava forte e o cenário claustrofóbico da cidade industrial de Koral tinha sido alterado para as dunas do deserto de Ultun e toda a sua vastidão. As Terras Baldias eram um largo pedaço de terra que separava a cidade de suas estações mineradoras e que agora reluziam sob a luz das luas de Pikex que começavam a surgir no horizonte.

O trio de motos flutuantes aproveitava o magnetismo dos trilhos para acelerar sobre as areias levando os Ladrões de Trilhos o mais rápido que podiam com aqueles motores reconstruídos a partir de sucata para roubar a precisa carga da Ferrovia Koral.

- Eles vão nos abordar pelos flancos! – Berrou Fae tão logo chegou no teto do vagão, ficando lado a lado com seu companheiro contrapondo-se ao rugido do vento. Ela se equilibrava como um felino, com bastante habilidade, enquanto se deslocava para um dos lados. – Eu fico com a direita e você com a esquerda!

O primeiro Ladrão de Trilhos emparelhou com o trem pelo lado de John. O bandido não hesitou em erguer um atirador de arpão, pronto para empalar o Freelancer, mas John não esperou o disparo e sacou sua pistola de plasma com uma das mãos e disparou uma única vez fazendo com que o feixe azulado atravessasse a turbina da moto flutuante que capotou para frente, derrubando o homem de cabeça nas areias gélidas e cortantes da noite. O veículo explodiu na sequência, transformando-se em uma bola de fogo que ficou para trás no breu noturno do deserto.

Do outro lado, Fae enfrentava dois motoqueiros de uma única vez. Eles atiravam com armas rústicas de projéteis enquanto ela revidava com rajadas de energia cintilante. Ao contrário de John que era um pilar imóvel, ela aproveitava sua agilidade e suas botas de sola magnética que se grudavam no teto do vagão para saltar, se esquivar e revidar os tiros. Com tiros certeiros, ela abateu o primeiro que ao ser alvejado no peitoral, apenas caiu para o lado como um peso morto enquanto sua moto seguia desgovernada na direção da imensidão do deserto.

O último dos bandidos aproveitou o momento que Fae precisou recarregar suas submetralhadoras e se preparou para lançar uma granada de pulso eletromagnético. Se aquela granada detonasse, as botas magnéticas dos dois falhariam e ambos seriam arremessados para a morte no deserto há mais de trezentos quilômetros por hora.

John estava se aproximando do lado de Fae para ajudá-la quando percebeu o que estava acontecendo e, com um rápido reflexo, ele guardou sua pistola, passou pela Freelancer a passos apressados e interceptou a granada no ar com uma das mãos antes que ela detonasse, conduzindo-a para uma nova trajetória em direção a moto que beirava o lado direito do vagão.

Com o movimento fluido que arremessou a granada de volta, o explosivo detonou bem próximo ao motoqueiro e o pulso EMP destruiu os sistemas de flutuação e propulsão da moto, fazendo o piloto cair na areia que tinha a consistência de uma pedra num impacto àquela velocidade, enquanto o trem seguia implacável.

- Você... – Disse Fae com suas armas finalmente recarregadas, porém, sem palavras. – Não devia ter saído da sua posição...

John não lhe deu atenção, mantendo seu olhar atento para o deserto atrás do trem, especialmente agora que um novo motor rugia na escuridão. Um mais grave e mais pesado que pertencia a um veículo maior, um blindado de transporte que aos poucos estava alcançando Expresso Fantasma. No topo do veículo inimigo, um homem grande e forte vestindo uma versão modificada de um exoesqueleto de mineração se preparava para pular quando estivesse suficientemente perto.

- Além do brutamontes, o blindado tem canhões automáticos! – Alertou a Freelancer com seus olhos analisando a ameaça. – Se ele atirar nos vagões, vamos descarrilar! Me dá cobertura!

John sacou sua pistola de plasma e respondeu apenas com um meneio de cabeça. Fae, por sua vez, correu e saltou com confiança. Ela não se sentia como uma experiência genética da GenX, como uma cópia humana desenhada especificamente para combate e espionagem, ela, pela primeira vez, se sentiu como uma Freelancer em um trabalho.

Com grande agilidade ela abandonou o vagão e aterrissou levemente no teto do blindado inimigo, já se desviando de um poderoso soco enquanto fazia um rolamento. Tão logo ela fixou os pés com as botas magnéticas, se colocou em postura de combate e sacou sua faca, mas desta vez ela ativou a fina camada de energia que reverberava pela lâmina, tornando-a ainda mais letal.

O líder dos bandidos era uma montanha de fúria. O exoesqueleto de mineração amplificava a força do usuário tornando qualquer golpe mortal para um ser humano comum. Nos antebraços, serras industriais tinham sido montadas para servir como armas e o homem não hesitaria em usá-las.

-  Entreguem a carga que ninguém se machuca! – Ameaçou o líder dos Ladrões de Trilhos, fazendo as serras girarem com um barulho estridente de motor. – Dá pra sair todo mundo inteiro disso!

- Só você se render e ir embora que todo mundo sai inteiro disso! – Replicou Fae que estava pronta para lutar.

O gigante avançou descendo um golpe circular com a motoserra ligada. Fae habilmente se esquivou com uma pirueta, desviando para o lado e chutando o flanco do inimigo que, mesmo protegido por hastes de metal, sentiu o golpe.

A Freelancer contra-atacou com sua faca cortando o ar e atingindo a blindagem do exoesqueleto fazendo o aço reforçado ceder, porém, fazendo apenas um corte superficial em seu oponente que logo se recuperou e ganhou alguma distância.

Enquanto o duelo se desenrolava no teto do veículo blindado, ele se afastou do trem para ganhar distância o suficiente para atirar com os canhões automáticos que giravam para adquirir uma solução de tiro. Fae, mesmo lutando contra o líder dos Ladrões de Trilhos gerou ao ouvir o clique metálico que significava apenas uma coisa: que a munição estava na câmara e que o tiro que descarrilaria o trem era iminente.

Um brilho esverdeado acendeu a noite vindo do teto do vagão, era a pistola de plasma de John, que mesmo no escuro, em movimento e àquela distância, acertou com precisão o interior da câmara do canhão, detonando a munição que estava estocada. A explosão foi contida, mas devastadora, o canhão foi arrancado da lateral do veículo blindado que sacolejou para todos os lados.

Aproveitando o descontrole do veículo, Fae foi rápida, fintou para a lateral de seu adversário, chutou as dobras de seus joelhos e com uma força invejável o empurrou para fora do veículo, deixando-o cair na areia. Aproveitando sua última oportunidade saltou com tudo que tinha para tentar alcançar o trem antes do blindado perder o rumo.

John se adiantou para a beirada da composição e esticou o braço, agarrando a mão de Fae que não teria conseguido alcançar o trem. Ele prontamente a puxou de volta enquanto o veículo que os perseguia ziguezagueava descontroladamente e capotava por entre as dunas acendendo outra labareda amarelada em meio a noite do deserto.

Fae respirava aliviada, mas foi por pouco tempo, pois o grunhido de engrenagens metálicas atraiu a atenção dos Freelancers revelando o líder dos bandidos em seu exoesqueleto que tinha conseguido se agarrar ao trem dois vagões atrás e agora avançava enfurecido na direção da dupla.

Dessa vez John tomou a frente e se esquivou do potente soco do inimigo com um movimento contido enquanto sacava sua espada de lâmina dobrável que se abriu e começou a vibrar em alta energia, tornando seu corte bastante poderoso. O gigante não se intimidou e atacou com uma de suas motoserras que foi prontamente partida ao meio pela espada de vibrolâmina do Freelancer.

O golpe seguinte do bandido aproveitava toda a força do exoesqueleto para aplicar toneladas de pressão, o suficiente para pulverizar ossos humanos comuns. Entretanto, John segurou o soco com uma das mãos e mesmo trincando seus dentes e fazendo bastante força, conseguia competir com a máquina cujo metal rangia em protesto.

Fae aproveitou a oportunidade para flanquear o adversário e ir para trás dele com sua faca de lâmina energética em punho. Ela golpeou repetidas vezes uma mochila que ficava nas costas, a central eletrônica do exoesqueleto, que prontamente entrou em curto e começou a vazar o óleo que utilizava para movimentar suas peças.

Aproveitando que seu inimigo era incapaz de gerar mais força com os danos sofridos, John prontamente o empurrou do vagão, arremessando-o a uma distância considerável enquanto deslizava para fora do teto gritando e despencava na direção do deserto, colidindo violentamente com a areia abaixo deles.

O Freelancer guardou sua espada dobrável e massageou a mão que tinha segurado o golpe, pois a sentia dolorida, mas calmamente retornou para dentro do vagão, sendo seguido por Fae que estava ofegante com todo aquele combate.

- O que será que esses caras querem tanto? – Resmungou a Freelancer encostando-se em uma das paredes e deixando-se escorregar até se sentar no chão.

John não disse nada, apenas deu as costas e abriu a porta da composição em que estava passando para o seguinte, andando a passos calmos até ingressar no vagão de carga. Lá, preso por correias de segurança, estava um grande cilindro criogênico com janela de vidro e feito de aço cromado. Era um antigo artefato de uma guerra há muito esquecida e, em seu interior, não havia armas ou ouro, mas sim uma figura humanoide cujo rosto lembrava muito o do próprio John, embora, fosse uns trinta anos mais velho.

Fae colocou a mão no vidro frio e observou o rosto adormecido e olhou para o lado apenas para conferir a semelhança, porém, quando seus olhos se voltaram para o painel da capsula, percebeu que não havia sinais vitais de qualquer espécie e a pessoa no interior da capsula, quem quer que fosse, estava morto.

- Por isso que queriam sigilo? – Resmungou Fae balançando a cabeça negativamente. – Quem acha que é? Parente seu?

O Freelancer olhou o rosto mais uma vez antes de dar as costas e deixar o vagão de volta para o de passageiros onde se sentaria pelo resto da viagem, sendo imediatamente perseguido por sua companheira que parecia muito mais sedenta por respostas do que ele próprio.

Divisória John  Freelancer

O Sol branco de Pikex já brilhava alto quando o Expresso Fantasma entrou na estação do setor de mineração. A viagem tinha levado uma noite inteira, porém, após o ataque inicial dos Ladrões de Trilhos, não houve mais nenhuma intercorrência.

John e Fae desembarcaram enquanto as esquipes da Ferrovia Koral começaram a desembarcar as caixas de suprimentos, assim como o cilindro contendo o estranho corpo. Outro gerente, uma mulher esguia que carregava consigo um tablet holográfico se aproximou da dupla com um sorriso satisfeito.

- Soube que tiveram uma noite agitada! Que bom que deu tudo certo! – Disse ela num tom animado e vibrante. – Agora, estou confusa com os relatórios que recebi. Existia um intruso na plataforma antes do ataque dos Ladrões de Trilhos? Como isso aconteceu?

John permaneceu em silêncio, apenas tirou o chapéu de aba larga que estava dobrado em um dos bolsos do sobretudo e o bateu como se quisesse tirar o pó, colocando-o sobre a cabeça enquanto sua companheira tomava a frente.

- Não senhora, não tinha nenhum intruso. – Afirmou Fae com firmeza nas palavras. – Os Ladrões de Trilhos atacaram vindos do lado de fora da plataforma, explodindo o portão. O Expresso Fantasma quase os atropelou durante a nossa fuga. Entretanto, todas as ameaças reais foram eliminadas durante o trajeto.

A gerente ergueu uma sobrancelha desconfiada, mas olhou para o trem intacto e para a carga preciosa que estava sendo descarregada sem quaisquer danos. Por fim, após dar de ombros, entregou os chips de crédito ao portador para cada um dos Freelancers.

- Bom trabalho. – Disse a gerente antes de voltar para seus afazeres e deixar os dois sozinhos.

Os dois saíram da estação e se viram na cidade mineradora, caminhando pela rua poeirenta enquanto múltiplos veículos cruzavam de um lado para o outro. John guardou o chip em um bolso fundo de seu sobretudo enquanto Fae prontamente transferiu o os valores para sua conta online.

- Vai pra onde agora? – Interrogou a Freelancer com curiosidade.

- Você mentiu. – Disse John sem direcionar seu olhar para a companheira.

- Fiz uma escolha. – Afirmou ela abrindo um leve sorriso. – A carga chegou, não sabemos absolutamente nada sobre ela e nem acho que saberemos um dia, mas fomos bem pagos. Os Ladrões de Trilhos morreram e o garoto está vivo em algum lugar de Koral. O saldo parece positivo.

John nada disse, o que fez o silêncio constrangedor se seguir por alguns momentos enquanto Fae ainda nutria alguma esperança de que ele diria para onde vai. Enfim ela suspirou e emendou.

- Eu vou pegar um trem de volta para Koral. – Contou a Freelancer com uma expressão mais séria no rosto. – Vou tentar achar aquele garoto. Ele parecia com fome, talvez eu possa ajudar.

- Boa sorte. – Disse John fazendo um gesto de despedida com a aba de seu chapéu.

- Escuta, porque nunca me chamou de 615 como eu pedi? – Inquiriu a jovem cruzando os braços ao parar de andar. – Estou tentando fazer um nome pra mim!

- Fae é mais humano. – Afirmou o Freelancer seguindo em sua caminhada, enquanto sua companheira permaneceu parada balançando a cabeça de um lado para o outro com um sorriso nos lábios.

Os dois se separaram ali. Fae deu meia volta e tomou o rumo da estação para pegar o próximo trem de volta a Koral, enquanto John seguiu seu caminho com passos firmes, abandonando a cidade e ganhando mais uma vez o deserto onde o vento levantava poeira e esvoaçava seu sobretudo, distanciando-se daquele entreposto de mineração até se tornar uma silhueta solitária na imensidão do deserto de Ultun.

 
 
 

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