John Freelancer em "A Máscara do Bem-Estar"
- Leo Ridire
- 21 de dez. de 2025
- 14 min de leitura
Atualizado: 28 de dez. de 2025

“Como toda sociedade já vista, a civilização galáctica humana nasceu, encontrou seu apogeu, prosperou e depois declinou, deixando diversas colônias espalhadas e segregadas por toda a Via Láctea. Este era o caso do exoplaneta Pikex, localizado nos confins da galáxia, um lugar que foi esquecido por todos fora daquele sistema estrelar e um lugar que esqueceu a todos em seus milênios de isolamento...”

O Sol branco castigava as dunas do deserto de Ultun com um calor impiedoso. John Freelancer parecia uma pequena mancha escura contra o dourado sem fim enquanto caminhava passo a passo afundando seus pés encobertos por botas de couro negro a casa pisada. Seu sobretudo surrado e escuro balançava levemente com a brisa carregada de areia, os óculos de lentes reflexivas e arredondadas protegiam seus olhos dos grãos de areia e o chapéu de abas largas lhe cobria a cabeça e fazia sombra sobre seu rosto.
Ele havia caminhado por dias desde que saíra da cidade de Vexar. Agora, no horizonte irregular observava silhueta de seu próximo destino: uma estrutura que parecia desafiar o deserto, um domo tecnológico que lembrava uma bolha de vidro se sobrepondo às dunas de areia que dava a impressão de refletir para longe a brilhante luz solar.
John se aproximou dos portões da cidade-estado de Thorkhum e estranhamente o ar esfriou até uma temperatura mais amena, o cheiro de ozônio e flores artificiais substituiu o cheiro queimado do deserto. As muralhas de aço eram altas e o portão de entrada era um arco de energia pulsante e tão logo o viajante parou diante dela, um sensor lhe escaneou e uma voz robótica o interpelou.
- Nenhum chip de identificação detectado. Biometria negativa, DNA ausente do banco de dados, íris e digitais não reconhecidas. – Afirmou a voz metalizada. – Identifique-se e declare que negócios tem em Thorkhum, a cidade Farol do Contentamento.
- Freelancer. Trabalho. – Para John aquelas duas palavras pronunciadas com sua voz grave e seca eram suficientes, embora para o sistema ele fosse um verdadeiro fantasma.
O viajante aguardou de pé e imóvel os vários minutos de silêncio até que a energia no pulsante cessou e lhe franqueou a entrada na cidade sendo reativada tão logo ele se viu em um longo corredor. Do outro lado, em um salão arredondado, havia um sorridente homem vestindo um macacão bege que muito se assemelhava a um uniforme estendeu a mão para o recém-chegado, mas não viu sua gentileza ser retribuída.
- Sou o gerente deste portal, trabalho para a PaxGen, a megacorp que coordena esta cidade. – Afirmou o homem com extrema amabilidade. – Peço que mantenha a calma e respire fundo.
Ao pronunciar aquelas palavras, tubos se abriram junto ao teto do recinto e um neuro-gás foi injetado no ambiente tomando-o por completo quase que de imediato. John cogitou reagir, mas perdeu a consciência e a última coisa que escutou foi uma música clássica calmante.

John recobrou a consciência e estava sentado em um banco, provavelmente no centro da cidade, onde prontamente observou pessoas que andavam de um lado para o outro com olhos arregalados e sorrisos de felicidade forçada em seus lábios, todos vestindo os mesmos macacões do gerente que o recebeu na cidade. Cor bege, calças e mangas compridas, leves ombreiras douradas e colarinho alto, não parecia ter nada muito distintivo entre as roupas dos cidadãos. Não havia tensão no ar, nem pressa, todos pareciam mecanicamente satisfeitos. A cidade era limpa ao extremo e aquele setor contava com belos arranha-céus e jardins hidropônicos para todos os lados.
O Freelancer se levantou, permanecendo quieto e sisudo como de costume. Mesmo sem saber como, ele sabia que seu corpo havia repelido os efeitos do neuro-gás. Ele começou a caminhar pelas ruas, vendo de tempos em tempos postes altos que despejavam no ar o agente bio-neural que mantinha aquelas pessoas aprisionadas naquela falsa felicidade.
Logo o viajante chegou a o Bar-Freelancer sem precisar procurar muito por ele, pois o lugar pequeno e isolado se localizava em um beco limpo e silencioso do centro da cidade. O nellung que geria o lugar não tinha uma dezena de olhos nervosos como outros de sua raça e sim os olhos da calma forçada tão naturais em Thorkhum.
- John Freelancer, o homem que nunca sorri. – Disse o nellung especialmente animado enquanto usava seus pares de braços superiores para limpar um copo e os pares inferiores para enxugar um prato. – Ouso dizer que você veio parar no pior lugar de Pikex para um Freelancer...
O barman era uma criatura insectóide cuja espécie conserva uma memória coletiva, motivo pelo qual ele conhecia o viajante mesmo sem nunca o ter visto pessoalmente. Seu corpo era composto por uma carapaça quitinosa cujos tons variavam do marrom ao cinzento e de sua cabeça redonda, além das dezenas de olhos negros, despontavam duas longas antenas que eram seus narizes apuradíssimos.
John nada respondeu, apenas se sentou no banco junto ao balcão e apontou para uma bebida não alcoólica que estava na estante atrás do alienígena. Quase foi possível ver um suspiro descontente sair da boca do nellung, mas os efeitos do gás não permitiam que ele se sentisse dessa forma.
- Você é um cara difícil. – Comentou o barman servindo um copo para o Freelancer enquanto tinha um sorriso forçado em seus pequenos lábios insectóides. – Olha, lá no fundo tem um trabalho pra você, mas é perigoso. Ela não parece... feliz...
O viajante seguiu as dezenas de olhares do alienígena até uma mesa que ficava no canto mais escuro do bar e prontamente se levantou, caminhando com a bebida em mãos e sentando-se na mesma mesa que um alienígena que parecia um misto entre orgânico e máquina. Era alto e esguio, porém, toda sua pele parecia metalizada e a cabeça não era humanoide, mas sim algo que lembrava uma protuberância alongada para trás com hexaplacas que se abriam e se fechavam como pétalas conforme a criatura emitia sons. No centro de seu peito, um núcleo luminoso brilhava ardentemente, como era comum a todos da espécie sylenex.
- Sou Lyra. – Afirmou a criatura com as seis placas de sua cabeça movendo-se em uníssono com sua voz sendo pronunciada de forma quase que melodiosa. – Quero contratar um Freelancer e você parece perfeito para o trabalho...
A criatura cibernética esperou por uma resposta, uma reação, mas seu interlocutor parecia incapaz da mais básica das curiosidades. Ele apenas tomou um gole de sua bebida e aguardou pacientemente seu cliente continuar sua fala.
- Certo... – Assentiu Lyra com uma respiração frustrada que atraiu a atenção do homem com quem conversava fazendo-o erguer por um instante uma de suas sobrancelhas. – Você, sabe-se lá como, não consta em nenhum banco de dados. E também não parece estar com um sorriso bobo estampado no rosto. Você é como eu, imune ao gás.
John apenas tomou mais um gole de seu copo quadrangular enquanto observava atentamente. O sylenex fez menção de parar sua fala na expectativa de ser interpelado, mas optou por prosseguir ao deduzir que o Freelancer não falaria.
- Eu sou um dos técnicos de manutenção das torres de gás. A PaxGen sequestrou muitos da minha espécie para cumprir essa função e nos manteve servis com um vírus de computador que só recentemente eu consegui rechaçar com alguns firewalls que fui desenvolvendo com o passar dos anos. Provavelmente eu sou o único que conseguiu. – Contou Lyra entristecendo-se por um momento. – Fugi para o Bar-Freelancer porque sei que era o único lugar da cidade em que estaria protegido da Polícia dos Costumes, parece que nem a PaxGen quer ter problemas comerciais por conta da memória coletiva dos nellung. Enfim, a grande verdade é que do mesmo jeito que o meu povo é controlado por um vírus de computador, os orgânicos são controlados por esse gás. A PaxGen criou um experimento de controle social onde a população não sente raiva, nem tristeza, mas também não sente medo e nem dor. São zumbis contentes com qualquer coisa que aconteça. São mão de obra muito barata para a extração de minérios, trabalho nas fábricas e nos laboratórios da PaxGen...
- Qual o trabalho? – Interrogou John conciso.
- O controle central do neuro-gás fica na Torre 7. Eu preciso que você ataque o lugar para desligá-lo e, na confusão, vou atacar o cyberespaço para destruir o algoritmo do vírus que aprisiona meu povo. – Afirmou o alienígena cibernético. – Vou fornecer os códigos de acesso para entrar na torre, mas a segurança da Polícia dos Costumes é com você. São todos militares equipados com armaduras e disruptores de pulso. Todos zumbis felizes mesmo quando cometem as maiores atrocidades.
Lyra estendeu sua mão de pele metalizada e nela continha um chip com uma pequena quantidade de créditos ao portador, tudo que ele tinha.
- Eu sei que não é muito... – Disse o alienígena sem muita convicção. – Mas é tudo que consegui juntar antes da minha fuga.
- É o suficiente. – Assentiu John pegando o chip e guardando dentro de seu sobretudo antes de se levantar da mesa sem dizer uma palavra a mais.

John e Lyra aguardaram anoitecer e seguiram pelas ruas de Thorkhum que eram iluminadas por uma luz falsamente agradável, embebidas em uma atmosfera doce que sempre lembrava a primavera e uma temperatura amena que muito destoava do deserto fora da cúpula que a esta hora era congelante. Os transeuntes por quem eles passavam sempre traziam sorriso bobos e imóveis em suas faces, além de uma gentileza fria.
A Torre 7 era a mais alta do centro da cidade, erguendo-se tão alta que fazia uma sombra cortante sobre quarteirões inteiros de Thorkhum. Ela era protegida por equipes da Polícia dos Costumes que sempre andavam de um lado para o outro com suas pistolas taser guardadas no coldre, cumprimentando qualquer que passasse por suas rotas, mas prontos a impedir invasores.
- Eles são mais fortes do que parecem. – Sussurrou Lyra com a voz melodiosa carregada de uma ansiedade que era desconhecida pelos residentes daquela cidade-estado. – Como vamos passar?
John nada respondeu, apenas se abaixou e deslizou furtivamente por entre as sombras das patrulhas enquanto sacava sua espada cuja lâmina curva se desdobrava em seguimentos sucessivos com precisão mecânica até atingir seu tamanho final e começar a vibrar silenciosamente, demonstrando o perigo daquela arma.
Lyra assistiu de longe a proeza do Freelancer que, com habilidade inigualável, parecia desaparecer nas sombras enquanto evitava as patrulhas da Polícia dos Costumes. Ao se aproximar da porta lateral da torre, John usou a identificação que lhe fora confiada para acessar a ala de manutenção, avançando para longe dos olhares do alienígena cibernético logo em seguida.

Os corredores dos dutos de manutenção eram mais úmidos, repletos de encanamentos e dutos por onde certamente o neuro-gás era conduzido para os diversos difusores espalhados pela cidade. O caminho não seguiu sem armadilhas, com pequenas torretas mecânicas despontando do teto e iniciando disparos de projéteis rudimentares na direção do Freelancer que, graças ao seu reflexo muito superior ao de um ser humano convencional, foi capaz de se jogar no chão com um rolamento e prontamente saltar com um corte circular e preciso de sua espada que destruiu a arma que o alvejava.
- A PaxGen usa muitas dessas defesas automáticas. Eles querem manter a imagem de Bem-Estar e isso não combina bem com tropas de choque fortemente armadas. – Disse Lyra pelo comunicador que estava no ouvido do Freelancer. – Lá fora policiais gentis equipados com armas não letais, aí dentro um deslize errado vai ser seu último...
Um grunhido de assentimento foi a única coisa que a cliente conseguiu como resposta, enquanto John se deslocava com mais cautela pelos corredores evitando acionar os gatilhos que disparariam as armadilhas até que chegou em um vão com um elevador de serviço, onde prontamente entrou com a senha do alien sylenex.
O trajeto correu em um silêncio ensurdecedor e quando as portas finalmente se abriram no topo da Torre 7, não havia luzes reconfortantes, nem música clássica tocando ao fundo, apenas o zunido da máquina de distribuição do gás que era alto, mecânico e saturava o ar com cheiro de óleo.
- Preciso de um acesso a rede. – Disse Lyra no comunicador. – Com isso consigo invadir o sistema e instalar meu firewall em meus companheiros.
O Freelancer olhou para ambos os lados e viu um computador, não era o servidor, mas era uma entrada. Ele prontamente plugou um chip que tinha recebido do alienígena e rapidamente a tela começou a mostrar algoritmos descompassados e erráticos.
- Estou no cyberespaço da PaxGen. – Afirmou o sylenex com satisfação em suas palavras. – Opa... probl...
- Intrusos! Protocolo de neutralização ativado! – Disse uma voz robótica que suplantou o resto da fala do contratante que passou a ficar mudo depois disso.
Comportas se abriram no recinto e alienígenas que eram um misto de orgânico e máquina começaram a adentrar com armas variadas em punho. Eram os companheiros sylenex de Lyra que estavam sendo comandados a expurgar os invasores.
John reagiu guardando sua espada e sacando o par de pistolas de plasma já disparando enquanto as retirava do coldre, abatendo dois adversários com tiros certeiros nas cabeças dos seres que caíram inertes no chão. Isso não intimidou os oponentes que continuaram avançando, forçando-o a recuar.
O primeiro sylenex a se aproximar portava um bastão de choque e golpeou com força, fazendo um som de zunido no ar, porém, John rolou por debaixo do ataque, evitando o contato e parando agachado próximo às costas de seu adversário, atirando a queima-roupa sem hesitar e abatendo mais um.
O segundo sylenex partiu para cima fazendo sequências de ataques com um par de bastões de choque que portava em ambas as mãos, obrigando o Freelancer a voltar a se mexer para se esquivar dos golpes enquanto recuava constantemente até obter uma abertura para disparar contra ambos os braços do alienígena, amputando-os com os estouros de plasma ao impacto.
Ainda veio um terceiro inimigo para cima de John, este armado com um rifle sônico, mas o Freelancer acertou um chute com suas longas pernas e arremessou a arma para longe, atingindo o rosto de um quarto adversário que foi nocauteado com a força do golpe. Sem hesitar, o mercenário atirou mais uma vez com suas pistolas de plasma, alvejando os joelhos do oponente que foram obliterados enquanto ele ainda estava surpreso por ter sido desarmado.
Sabendo da desvantagem numérica, John correu para um outro cômodo e fechou a comporta. Ele respirou profundamente para se centrar por um instante e depois disso reabriu a porta com ambas as pistolas prontas, disparando incessantemente contra quase uma dezena de inimigos que foram abatidos sem chance de reação.
- O que você fez?! – Protestou a voz de Lyra que finalmente voltou ao comunicador. – Consegui fugir dos companheiros que me perseguiam no cyberespaço e cheguei na fonte de dados. Estou instalando os firewalls, mas não imaginaria que você estava promovendo um massacre contra meus irmãos aí!
- O que eu destruí, vocês podem concertar. – Replicou John com sua voz grave e lacônica.
- Eles ainda sentem dor! – Rebateu o alienígena indignado parando para pensar por um instante. – Espera. Você sabia que podemos reparar esses tipos de danos? Você já tinha lutado contra algum sylenex antes?
John ficou em silêncio, não por não querer responder à pergunta, mas por não conhecer a resposta. Em sua mente ele sabia que não estava matando aqueles inimigos, porém, era incapaz de explicar como sabia disso. Ele ignorou as perguntas insistentes que ouvia em seu comunicador e pegou uma faca de combate que um dos adversários tinha deixado cair, cuja lâmina negra podia vibrar para um corte mais limpo e o dorso com dentes serrilhados. Aproveitando este item, usou a chapa fina de aço para encaixá-la na fresta de uma das portas e abri-la com uma alavanca.
A câmara circular que se escondia atrás da porta dupla que tinha sido aberta a força, continha uma máquina que estava ligada por um amontoado complexo de tubos, filtros e pareciam coordenar o bombeamento de neuro-gás por toda Thorkhum. No centro um console com a logo da PaxGen destacado indicando que era a central de controle do gás.
- Os firewalls já foram instalados e meus companheiros estão reinicializando. – Afirmou Lyra no ouvido do mercenário. – Agora só falta o gás. Precisamos desligar o campo de contensão magnético para o neuro-gás ser solto fora do domo e dispersar na atmosfera, porém, o sistema tem um backup que impede isso, então se não formos rápidos não vamos conseguir. Parece que o CEO da PaxGen está indo para a câmara do gás, mas que coisa estran...
Mais uma vez a comunicação de Lyra foi interrompida, as luzes do ambiente mudaram para vermelhas. John se virou para a porta quando ouviu passos pesados e logo se deparou com um alienígena diferente. Era humanoide com mais de dois metros de altura e possuía a pele acinzentada, repleta de fissuras, mas de aspecto endurecido. A cabeça não possuía olhos visíveis, pois a criatura se orientava por sonar, mas tinha um crânio alongado e uma mandíbula grande que, quando totalmente aberta, poderia devorar um ser humano adulto, embora não houvesse dentes e sim glândulas se secretavam um ácido viscoso. Nas costas cresciam espículas orgânicas que vibravam aos mais sensíveis sons e seus braços grossos contavam com apenas três dedos nas mãos.
- Você quer tirar de mim a minha comida? – Rosnou a criatura que trajava um uniforme da PaxGen e um jaleco branco por cima. – Humano sempre felizes e sylenex controlados foi a fórmula perfeita para que eu nunca mais tivesse que caçar viajantes perdidos no deserto. E você está atrapalhando a MINHA utopia!
- Você dá paz e felicidade falsa para essa gente para poder se alimentar delas? – Interrogou John erguendo uma de suas sobrancelhas por trás dos óculos reflexivos.
- Claro! – Assentiu o alienígena da raça Zurk’Mak com escarnio. – O que mais seria? Humanos são deliciosos, sabia? Aliás, você está oficialmente no cardápio da minha janta...
Com um movimento de sua enorme mandíbula, o alienígena disparou o ácido que excretava em sua boca como se fosse uma cusparada, mas John desviou-se com reflexos inumanos. A criatura o atacou de novo e uma nova finta ocorreu, algo que se repetiu múltiplas vezes.
- Fique quieto! – Urrou o CEO enfurecido, disparando mais sequências de ácido cuja pontaria nunca acertava até que finalmente ficou com a garganta seca e não conseguiu mais fazer este ataque, começando a pigarrear.
O Freelancer permaneceu imóvel, ignorando a oportunidade de atacar até que a máquina de neuro-gás atrás dele começou a fazer barulhos incomuns, típicos de uma reversão na bomba que não mais despejava a neuro-toxina no interior do domo da cidade, mas a ventilava na atmosfera de Pikex para se dispersar e perder seu efeito completamente.
- O que você fez?! – Protestou o zurk’mak enfurecido.
O alienígena, descontrolado de raiva, investiu contra o mercenário com seu corpo pesado e forte, buscando acerta-lhe um encontrão, entretanto, nada conseguiu quando o Freelancer saiu da frente permitindo que seu adversário se chocasse com uma das paredes metálicas do lugar. John sacou uma de suas pistolas do coldre e disparou duas vezes contra o console que permitiria o CEO restaurar o gás, destruindo-o completamente.
- Você está acabando com tudo! – Bufou a criatura ensandecida, avançando novamente para agredir seu desafeto e mais uma vez se frustrando ao cair no chão depois de um potente soco que apenas atingiu o ar.
Agora era a vez de John atirar contra a máquina e os tubos que estavam ligados nela, destruindo tudo, para o completo desespero do CEO que se levantava ainda atordoado, mas desesperado, completamente tomado pelo pânico.
- Eu te dou todos os meus créditos! – Afirmou o alienígena monstruoso. – Só pare com isso! Eu preciso dessa máquina pra poder me alimentar! Sem isso os humanos vão descobrir! Eles vão se revoltar! Eles não vão mais ser felizes!
O Freelancer apenas fitou para a criatura derrotada diante dele e sacou sua segunda pistola de plasma, atirando repetidas vezes contra as pernas do monstro até que elas se separassem do corpo, deixando o CEO tombou no chão em choque, esperando a morte, resmungando e contorcendo-se em pavor e desespero. John guardou as armas, lhe deu as costas e caminhou calmamente em direção ao elevador.
Ao cruzar os corredores internos da Torre 7, percebeu que alguns sylenex recolhiam seus colegas feridos para levá-los a câmaras de reparo e que os seres cibernéticos o observavam com um misto de reverência e medo. Ele os ignorou e desceu no elevador em silêncio até o térreo, onde, ao sair da estrutura, viu os humanos das patrulhas da Polícia dos Costumes completamente atordoados e confusos com a miríade de sentimentos que afloravam em seu interior, muitos conflitantes, afinal, aquelas eram pessoas que nunca tinham aprendido a gerir suas emoções em toda a vida. John sequer lhes direcionou um olhar e atravessou a rua, encontrando Lyra que estava sentado no meio fio da calçada, exausto.
- Acabou... – Afirmou o sylenex com sua voz melodiosa. – Não teria conseguido desfazer o sistema do gás sem você. Obrigado.
- Foi um contrato. – Respondeu John seco.
- Mas nós fizemos a coisa certa, mesmo que doa agora. Eles estão livres. – Insistiu Lyra obtendo apenas o silêncio como resposta. – Você vai fazer o que agora?
Sem responder com palavras, John Freelancer botou as mãos nos bolsos do sobretudo e deu as costas para o alienígena, começando sua caminhada em direção aos portões em arco de Thorkhum que outrora pulsavam em energia e ganhando o deserto que logo lançou um vento seco enquanto o Sol branco despontava no horizonte afastando o frio gélido da madrugada para dar lugar ao calor escaldante do dia.







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