O Advomante
- Leo Ridire
- há 7 horas
- 20 min de leitura
“Imagine um sistema judicial onde a morte não é o fim, mas apenas uma pausa processual. Pela lei, vítimas de assassinato são trazidas de volta por exatos sessenta minutos para ocupar o banco das testemunhas e apontar seus algozes. Teria tudo para ser a justiça perfeita, exceto por um problema: a morte não santifica ninguém.
São nestes casos que Promotores e Advogados experts no uso de magias de necromancia atuam como os únicos profissionais capazes de impedir que uma mentira vinda do além se torne uma Sentença irrevogável para os vivos...”

O ar-condicionado do 1º Tribunal do Júri da Capital trepidava, fazendo barulhos estranhos a cada quinze minutos pois, mesmo estando sendo forçado ao máximo, era incapaz de lutar contra o verão abafado e a densidade ectoplásmica que saturava no salão. Murilo Bastos ajeitou o colarinho do terno de linho italiano, sentindo uma gota de suor frio escorrer pelas costas. Não era medo. Era o calor insuportável de um prédio público construído há setenta anos e mantido à base de limitadas verbas públicas e eventuais esquemas de corrupção.
Ele olhou para o relógio de pulso, um modelo digital feito completamente de ouro que custava mais do que o carro de qualquer um dos sete jurados sentados à direita. Faltavam três minutos para a sessão retomar, mas sua paciência já tinha ido embora fazia tempo.
- Dr. Murilo? – Disse a voz trêmula que veio do homem sentado ao seu lado no banco da defesa. André Ferraz, o réu. Um rapaz que aos trinta anos tinha a cara de quem nunca pagou um boleto e agora enfrentava a conta mais alta da sua vida. - Ele... ele vai aparecer mesmo?
Murilo suspirou e o som saindo pesado, carregado de vinte anos de advocacia criminal. Ele abriu sua garrafa térmica pessoal de aço escovado, servindo-se da quinta dose de café daquela manhã. O líquido era preto, forte e amargo como a vida.
- É a lei, André. - Respondeu Murilo com a voz rouca, sem olhar para o cliente. – Artigo 402-A do Código de Processo: A vítima tem direito a voz. E nós temos o dever de ouvir. Seu único trabalho agora é ficar quieto e não fazer cara de culpado.
Murilo bebeu o café, mas havia tanta cafeína em seu corpo que ela mal fazia cócegas. Ele estava exausto. Não era o tipo de exaustão que uma noite de sono resolveria. Era um cansaço estrutural, sedimentado nos ossos. Estava cansado de juízes que se achavam deuses, de promotores que tratavam o processo penal como vingança pessoal, e, acima de tudo, cansado da incompetência procedimental dos tribunais. A advocacia era a arte de gerenciar histórias para que elas parecessem uma verdade aceitável. Ele era muito bem pago para isso, mas o dinheiro não comprava paciência.
No lado oposto do plenário, a Promotora Helena ajeitava sua beca. Ela acompanhava o Oficial de Justiça que desenhava, com precisão clínica, runas de contenção em volta da cadeira das testemunhas usando um giz de cera. Murilo a respeitava; Helena era técnica, fria e conhecia a jurisprudência melhor que muitos desembargadores, embora, em sua opinião, não era algo tão difícil.
- Senhores jurados, o silêncio, por favor – A voz do Juiz Presidente, Dr. Valadares, ecoou pelo microfone chiado. Valadares parecia uma gárgula entediada, folheando os autos físicos com dedos manchados de tinta, provavelmente a única pessoa em todo o poder judiciário que ainda usava papel. – Vamos dar início à fase de instrução com a oitiva da vítima. O Oficial de Justiça já verificou o selo?
Um homem baixo segurava um medidor de frequências espectrais, que lembrava um grande rádio de mão que emitia pequenos bips, quando se voltou para o magistrado e assentiu com a cabeça.
- Selo de sal grosso e chumbo intacto no Banco das Testemunhas, Excelência. Isolamento metafísico presente. O fantasma não poderá sair do raio de um metro e meio da cadeira. – Afirmou o homem após sua conferência final.
- Ótimo – Disse o Juiz ao bater com o malhete, soltando um som abafado como se atingisse algodão. – Defesa e Acusação, preparem seus canais. Tragam a urna.
A porta lateral se abriu e dois Policiais Militares fardados entraram carregando uma caixa de chumbo pesada, gravada com o brasão da República e selos de sigilos judicial. Dentro dela estavam as cinzas do morto e a Víncula, o objeto pessoal que ancorava a alma de Júlio Ferraz aos seus restos mortais a este plano: um relógio de bolso antigo, manchado com o sangue seco do crime.
Eles depositaram a caixa no centro do círculo de sal, em uma gaveta que ficava abaixo da cadeira vazia destinada às testemunhas. O plenário escureceu repentinamente. Não porque alguém apagou as luzes, mas porque a luz parecia ter medo de tocar aquela caixa. O cheiro de ozônio e flores velhas de velório invadiu o nariz de Murilo e de todos os presentes. Ele odiava aquele cheiro. Lembrava-lhe de prazos judiciais que não poderia perder mesmo se morresse.
- Habeas Corpus ad Testificandum. – Murmurou o Juiz, lendo o final do encanto necromântico com a mesma empolgação de quem lê uma lista de compras. – Convoco agora Júlio César Ferraz para dar sua versão dos fatos. Você tem sessenta minutos. O tempo começa... agora.
O som foi de um pano imaterial sendo rasgado violentamente iniciou a contagem quando o véu entre a vida e a morte foi fraturado para que o morto pudesse se manifestar no mundo dos vivos. O ar dentro do círculo de sal tremeu, condensou e congelou. A geada cobriu a caixa de chumbo e, dela, uma fumaça azulada começou a subir ganhando forma. Ombros largos, um terno bem cortado feito de neblina, e um rosto... o rosto pálido e translúcido que ao mesmo tempo em que lembrava o da vítima Júlio Ferraz, também lembrava uma caveira morta a cada flash de energia espectral que cortava o interior do círculo.
A plateia prendeu a respiração. Os jurados se encolheram nas cadeiras. Até o ar-condicionado pareceu parar de fazer barulho, respeitando a presença da morte.
O espectro abriu os olhos. Eram buracos negros, mas a íris brilhava com uma consciência afiada e nada confusa. Ele olhou para o Juiz, depois para Helena, e finalmente pousou o olhar sobre seu irmão André, o réu.
Murilo tomou mais um gole de café e pensou consigo mesmo: “Lá vamos nós...”. Sua dor de cabeça habitual começava a pulsar não por estar na presença de um espírito desencarnado, mas pelas mentiras que ele imaginava que o morto contaria para dificultar o seu trabalho.
- A testemunha está presente – Declarou o Juiz olhando para um cronômetro digital vermelho que surgiu flutuando acima da cadeira das testemunhas: 59:59. – Dra. Helena, a palavra é do Ministério Público por vinte minutos.
Murilo recostou-se na cadeira, girando uma caneta cara entre os dedos. Ele estava pronto para a batalha, mas, por dentro, só queria que aquilo acabasse logo para poder ir para casa e dormir por uma semana.
Helena levantou-se apressadamente, pois não poderia perder tempo. A Promotora caminhou até o limite do círculo de giz com a confiança de quem já mandou dezenas de almas penadas para o esquecimento e seus assassinos para a prisão de segurança máxima. Ela abriu seu tablet com os arquivos timbrados da investigação da Polícia Civil.
- Sr. Júlio Ferraz – A voz dela era projetada para os jurados por um sistema de autofalantes de maneira clara e firme. – O senhor confirma sua identidade e consciência de que o tempo corre contra sua existência?
O espectro assentiu com um meneio de cabeça, um movimento que deixou um rastro luminoso no ar, como se sua energia espectral estivesse se dissipando aos poucos.
- Confirmo, Dra. Helena. A morte clareou minha mente. – Afirmou a vítima com sua voz que não vinha de cordas vocais, mas sim uma vibração fria que ressoava diretamente nos vivos como um assombro.
- Muito bem – Helena abriu a pasta. – Consta nos autos do Inquérito Policial, folhas 152 a 160, o laudo da necropsia assinado pelo IML. A causa mortis foi perfuração pulmonar decorrente de arma branca, inserida na região dorsal, popularmente conhecida como "facada nas costas". A perícia taumatúrgica identificou resíduos de ódio passional na arma do crime. – A promotora fez uma pausa dramática, virando-se para o réu, André, que gelou e prontamente olhou para Murilo em desespero, como se lhe pedisse ajuda. – O Ministério Público sustenta que seu irmão, movido por inveja da gestão da Ferraz Construtora, o atacou à traição. Então responda para este Conselho de Sentença, Sr. Júlio, quem desferiu o golpe que ceifou sua vida?
O tribunal ficou em silêncio absoluto. O cronômetro acima da cabeça do morto marcava 55:10.
Murilo observou o cliente. André estava tremendo, os olhos fechados, esperando a condenação. Murilo já calculava mentalmente os recursos para o Tribunal de Justiça, talvez um Embargo alegando interferência espiritual indevida.
Júlio Ferraz sorriu. Um sorriso triste, translúcido, um sorriso morto.
- A senhora está equivocada, Doutora.
- Como? – Indagou Helena ao piscar, travando no meio do gesto.
- Ninguém me matou. – Afirmou o morto com a voz calma ecoando pelo plenário. – Foi um acidente estúpido e trágico, mas um acidente.
Um murmúrio correu pelos bancos da assistência. O Juiz Valadares ergueu os olhos dos autos pela primeira vez e Helena franziu a testa com sua máscara de confiança rachando.
- Sr. Júlio, o senhor foi esfaqueado pelas costas. A física e a anatomia tornam impossível... – Rebateu a Promotora claramente ficando mais nervosa, afinal, diferente das testemunhas comuns, ela não tinha muito com o que ameaçar alguém que já estava morto, afinal, faria o que? O prenderia por falso testemunho?
- Eu estava limpando minha coleção de adagas antigas... – Interrompeu o espectro com uma suavidade irritante. – Escorreguei no tapete persa. O chão estava encerado demais, acredito. Caí para trás, sobre a lâmina que estava apoiada verticalmente num suporte baixo. Uma fatalidade. O André... – O fantasma virou o rosto brilhante para o irmão. – O André tentou me socorrer. Ele puxou a faca para tentar estancar o sangue, por isso as digitais dele estão na arma. Ele tentou me salvar.
André abriu os olhos, boquiaberto. O alívio inundou o rosto do rapaz, seguido de um choro convulsivo.
- Júlio... meu Deus, Júlio! – Soluçou o réu esperançoso.
O plenário virou uma feira com vozerios quase se sobrepondo ao interrogatório. Jurados cochichavam, jornalistas acomodados na plateia do plenário digitavam furiosamente em seus celulares, afinal, aquele julgamento tinha virado manchete em todos os jornais.
- Ordem! – O martelo do Juiz bateu três vezes. – A testemunha está falando! Se não pararem vou mandar esvaziar o plenário!
Helena estava pálida. O caso dela acabara de ser implodido pela própria vítima, algo que não era costumeiro, já que normalmente o sentimento de vingança no morto era algo tão forte que suas mentiras normalmente eram para condenar inocentes e não absolver culpados.
- Isso é um absurdo! – Gritou a Promotora indignada, perdendo a postura. – Excelência, a testemunha está mentindo! O ângulo da ferida, a força necessária para perfuração, está tudo demonstrado no Relatório Policial! Requeiro a impugnação do depoimento por Coação Post-Mortem!
O Juiz havia negado o pedido a princípio e Helena voltou-se mais uma vez para a testemunha buscando perguntar-lhe outras coisas com o objetivo de que ele se contradissesse para provar a mentira inicial. Murilo Bastos não se mexeu, na verdade ele estava achando aquilo incomumente divertido, mas, mesmo assim, não sorria nem celebrava uma vitória prematura. Apenas observava.
O advogado conhecia a morte tão bem quanto qualquer necromante. Ele convivia com ela há duas décadas e isso lhe trazia um conhecimento: os mortos raramente são benevolentes, especialmente aristocratas que morrem jovens. Ele olhou fixamente para a aura de Júlio. A maioria das pessoas via apenas o brilho azul, mas um necromante experiente via as nuances e era exatamente isso que Murilo observava.
Havia algo errado na borda do ectoplasma. Uma vibração púrpura, quase imperceptível. Não era a cor do perdão. Era a cor da malícia e prontamente um pensamento lhe cortou a mente: “Por que você está mentindo?” Murilo se questionava ao mesmo tempo em que girava a caneta. “ O que você ganha com isso? Se você inocentar o André, o processo acaba. O seguro paga, a vida segue...”
E então, a peça que faltava finalmente se encaixou na mente cínica de Murilo.
Se André fosse condenado, ele seria declarado "indigno" e perderia o direito à herança. Todo o patrimônio, as empresas e os passivos iriam para o Estado ou parentes distantes. Mas se André fosse absolvido, ele herdava tudo.
Murilo puxou discretamente seu tablet e abriu um arquivo criptografado que seus estagiários e uma médium contratada tinham levantado na noite anterior. O balanço da Ferraz Construtora.
Os Livros Razão do mundo físico estavam excepcionalmente bem, bons até demais. Entretanto, no meio de tantos contratos milionários extremamente vantajosos para a construtora, havia um contrato cuja assinatura não era digital e sim feita com sangue, um pacto com entidades do lado escuro que conferiam prosperidade para a empresa, mas em troca da alma de seu proprietário quando chegasse a hora do débito.
Júlio não estava mentindo para salvar seu irmão da prisão. Ele estava garantindo que, quando as entidades do lado escuro viessem coletar do débito, fosse a alma de André a que eles levariam. Neste cenário, se o irmão herdasse a empresa, herdaria junto uma dívida que faria seu tempo de prisão parecer um ressorte de férias.
- Dr. Murilo? – Chamou o Juiz, impaciente, tirando o advogado do transe. – A Promotoria encerrou suas perguntas. A Defesa deseja inquirir a testemunha? Ou está satisfeita com a tese de acidente?
Quando Murilo olhou em volta, Helena já tinha se sentado, bufando de raiva enquanto encarava com ódio o fantasma mentiroso. André estava esperançoso para seu advogado esperando que ele dissesse apenas “Sem perguntas, Excelência.” Enquanto o cronômetro marcava ainda 45:05.
O advogado se levantou devagar, suas juntas estalaram por estar há muito tempo sentado, mas mesmo assim ele caminhou até o centro do plenário enquanto abotoava seu paletó e ajeitava sua toga. Ele parou de frente para o fantasma e cruzou os braços, encarando a morte que estava centímetros a sua frente.
- A Defesa tem perguntas, sim, Excelência. – Disse Murilo com a voz arrastada de quem preferia estar em qualquer outro lugar.
André arregalou os olhos, surpreso e sussurrando desesperado como se quisesse gritar apenas para o seu defensor que já estava distante ouvir. – O que você está fazendo? Ele disse que foi acidente! Vamos embora!
Murilo e todos presentes no plenário escutaram o cliente, mas ignorar ele foi um consenso não dito. O fantasma sustentava o olhar desafiador do advogado que não desviava por um momento sequer.
- Sr. Júlio – Começou Murilo, ignorando o protocolo de cordialidade. – O senhor afirma que caiu sobre a faca. Um acidente lamentável, certamente.
- Exatamente, Doutor. – Assentiu o fantasma com certo estranhamento naquela pergunta.
- Curioso – Comentou Murilo coçando o queixo mal barbeado. – Porque se foi um acidente, seu irmão, aqui presente, torna-se o herdeiro universal imediato de todos os seus bens e de todas as suas obrigações contratuais. Estou certo? E quando digo obrigações contratuais, me refiro aquelas firmadas com o lado escuro. Se André for condenado e não herdar nada, a alma que vai ser usada para pagar o débito será a sua, já que a propriedade vai passar para o Estado e Estados não tem almas.
O sorriso do fantasma vacilou. A luz azul piscou. Murilo se virou para o Júri, com sua exaustão movida a café dando lugar a uma energia predatória.
- Excelência, eu requeiro uma acareação técnica. Quero confrontar a testemunha não com o laudo da polícia, mas com um certo contrato da empresa que está nos documentos que minha equipe juntou nos autos recentemente.
O tribunal arfou. Um advogado de defesa atacando a testemunha que acabara de inocentar seu cliente? Era genialidade ou loucura na visão de vários dos jornalistas presentes.
- O Doutor está acusando a própria vítima de Falso Testemunho para incriminar seu cliente? – Interrogou o Juiz Valadares que parecia, pela primeira vez em décadas, genuinamente confuso.
- Não, Excelência. – Murilo sorriu sem humor. – Estou defendendo meu cliente dele mesmo. E para isso, preciso provar que este fantasma é um mentiroso.
- Pela ordem, Excelência! – Disse a voz de Helena cortando o ar como um estalo de chicote. – Excelência, a Defesa está tumultuando o processo! O advogado está tentando descredibilizar a tese que absolve seu próprio cliente? Isso é loucura!
Murilo não se virou. Continuou encarando o espectro de Júlio Ferraz, que agora flutuava alguns centímetros mais alto, a aura azulada tremeluzindo com faíscas vermelhas de irritação.
- Não é loucura, Doutora. É Direito Sucessório – Retrucou Murilo, calmamente, tirando do bolso interno um pequeno controle que o permitiu exibir para todo o Júri um holograma com a imagem de um documento amarelado. Não era papel comum, era pergaminho de pele de cabra que cheirava a enxofre e sangue. – Excelências, peço a atenção para este contrato nomeado como “Termo de Confissão de Dívida de Almas e Outras Avenças.”, assinado com sangue cujo laudo do demonologista contratado pela Defesa constatou de forma bem clara quanto ao fato de que a alma a ser coletada como pagamento do pacto é a do proprietário da Ferraz Construtora e, na ausência de uma alma coletável na data do débito, a alma do último proprietário é a que será usada em pagamento.
O Juiz Valadares ajustou os óculos na ponta do nariz e fez um gesto com a mão. O documento holográfico flutuou da mão de Murilo até a bancada do magistrado.
- Vou deixar a Defesa seguir. – Afirmou o Magistrado após folhear a imagem do documento com cautela, dando especial atenção ao laudo do demonologista que seguia em anexo.
- Sr. Júlio, segundo os Livros Razão, cerca de cinco anos atrás, a Ferraz Construtora estava falida. De repente, ganhou diversas licitações, processos ambientais foram extintos e o lucro triplicou. Um milagre financeiro que, na verdade, é resultado de um contrato sigiloso com as entidades do lado escuro. – Disse Murilo voltando seu olhar para o morto sem lhe direcionar qualquer piedade. – Agora, os Excelentíssimos Senhores Jurados devem estar se perguntando uma coisa: qual é a vantagem de ganhar dinheiro no mundo físico se vai pagar com a alma por toda a eternidade? Bom, Sr. Júlio, vamos falar do prazo para a coletagem da alma?
- Não ouse! – Disse o furioso espectro se erguendo e tentando cruzar a barreira mística que o conteve imediatamente com descargas energéticas que lembravam raios.
- Cláusula 4ª: “A coleta da alma se dará noventa dias após a morte do Contratante, seja ela natural ou não. A coleta incidirá sobre qualquer proprietário vivo da empresa Ferraz Construtora, ainda que herdeiro do Contratante independente da distância parental.”. Agora vamos ao parágrafo único: “Caso não haja almas coletáveis no momento do vencimento deste Termo de Confissão, por qualquer motivo que seja, como por exemplo, mas não exclusivamente, o proprietário da empresa ser outra pessoa jurídica, a alma a ser coletada será a do Contratante, ainda que o mesmo tenha conseguido passe para paraíso, limbo, reencarnação ou qualquer outra esfera de existência não catalogada neste instrumento.” – Leu Murilo que agora lançava um olhar de pena para seu cliente antes de voltar-se mais uma vez para o falecido. – Me corrija se eu estiver errado, Sr. Júlio, mas imagino que o plano original era vender a empresa para algum desavisado antes de morrer e aí o débito seria coletado em um total desconhecido, porém, suponho que sua morte prematura tenha mudado os planos e agora você tem um intenso desejo de que seu irmão André herde a empresa. Por que antes queria protegê-lo e agora já não quer mais?
O plenário estava em um silêncio sepulcral. O cronômetro do morto marcava 28:45 e o clima era de total tensão. Murilo mais uma vez retirou sua atenção da testemunha e lançou um olhar firme para os sete Jurados que o observavam atônitos.
- Júlio não caiu sobre a faca. Ele foi assassinado, mas ele precisa que o Júri acredite em um acidente. Afinal, se André for condenado por homicídio e a empresa for para o Estado, será a alma dele que será coletada. – Afirmou Murilo em um tom definitivo.
O espectro de Júlio rugiu. Não foi um som humano. As luzes do tribunal piscaram múltiplas vezes, deixando o ambiente outrora bem iluminado num misto de trevas e luz que dava ainda mais intensidade ao brilho espectral da testemunha.
- Cale a boca! – Vociferou Júlio cujo som da fala estourava como um trovão distorcido. – Eu construí um império! O André é um inútil! Ele merece carregar o peso! Ele sempre viveu às minhas custas! Que ele pague com a alma dele! Eu mereço meu descanso final, não uma eternidade de tortura!
A confissão explodiu no tribunal. Helena estava presa a sua cadeira, nervosa, invocando suas próprias runas necromânticas com medo de que o círculo de proteção não fosse capaz de conter o fantasma. Os Jurados mostravam-se igualmente nervosos e mesmo o Oficial de Justiça correu para reforçar a barreira, enquanto Murilo mantinha-se perfeitamente imóvel a centímetros do morto, de onde nunca tinha saído desde que começou seu interrogatório.
O cronômetro do morto marcava 25:05 e um alarme tocou informando que o tempo da Defesa havia se esgotado.
- O campo está perdendo coesão! – Alertou o Oficial de Justiça que lançava sua energia mística sobre o círculo de sal grosso para tentar conter o espectro.
Com o termino de seu tempo, Murilo deu as costas para o fantasma calmamente e caminhou até seu lugar, sentando-se próximo de André que estava em pânico. O Juiz, já completamente confuso com aquela audiência, voltou-se para a Promotora de Justiça.
- Dra. Helena, a senhora queria uma condenação, certo? – Indagou o Magistrado ao virar-se para ela com um ar perdido. – A menos, é claro, que a Doutora agora queira defender o réu. De qualquer forma, a palavra é sua para a Treplica por dez minutos.
Helena olhou para Murilo, depois para o fantasma, e seus olhos brilharam com uma compreensão tática. Ela era uma servidora pública, mas antes de tudo, era uma caçadora de mentiras.
- Excelência! – Disse Helena num tom enfático, recuperando a postura. – O Ministério Público adita a Denúncia. Diante da confissão da testemunha de que está manipulando os fatos por interesse patrimonial oculto, requeremos que seja desconsiderada a tese de acidente!
- Vocês não podem fazer isso! – Berrou o espectro em mais um surto de raiva. O relógio acima dele ainda marcava: 23:14. A forma de Júlio se desfazia com a riava, emanando nas bordas, virando fumaça. – André não me matou! Foi tudo um acidente! Eu escorreguei! Ele jamais me mataria!
- Quem matou você, Júlio? – Insistiu a Promotora sobrepondo-se ao ruído do além. – Diga a verdade e vá embora com dignidade! Ou prefere dissipar no Vazio deixando essa mentira registrada?
- Meu irmão é inocente! – Afirmou Júlio de maneira insistente.
- O Ministério Público encerra. – Disse Helena enfezada voltando para sua cadeira.
- A Defesa em Tréplica. – Declarou o Magistrado já cansado daquilo. O cronometro marcava agora: 18:37.
- Acredito que a Dra. Helena não está muito acostumada a estar do meu lado do julgamento, normalmente os mortos mentem a favor dela. – Comentou Murilo, dirigindo-se aos Jurados com um tom irônico enquanto voltava para o centro do salão. Em seguida, virou-se para o Juiz. – Excelência, a Defesa não se opõe ao aditamento do Ministério Público. Realmente não houve acidente nenhum.
O fantasma tremeu. Olhou para o irmão, que chorava copiosamente no banco dos réus, não mais por medo da prisão, mas pelo medo de que aquele julgamento não era mais a respeito da sua liberdade, mas sim sobre o destino da sua alma.
- Sr. Júlio, última chance. – Afirmou Murilo voltando-se para o fantasma. – Última chance de fazer a coisa certa. O contrato agora é público, ninguém em sã consciência vai comprar a Ferraz Construtora e correr o risco de ter a alma coletada. Além do mais, depois do débito ser feito, a vantagem que sua empresa teve nas finanças nos últimos cinco anos também vai desaparecer. Seu irmão não vai herdar, você vai ter a alma coletada sabe-se lá para onde e a empresa vai falir. Sua vingança falhou. Se existe alguma clemência divina, e esta é a sua única chance, ela certamente começa com você fazendo a coisa certa.
- André não me matou. Eu caí por acidente. – Declarou Júlio em um tom mais sereno e ameaçador, enquanto recostava-se na cadeira das testemunhas. O cronometro marcava: 11:17. Seu tempo já estava no fim.
- A Defesa encerra. – Afirmou o advogado retornando para seu lugar outra vez. Logo que se sentou, bateu no ombro do réu e sussurrou no pé do seu ouvido. – André, escuta. Eu vou fazer uma única pergunta pra você e quero que diga a verdade. Se você mentir, eu vou recorrer até o inferno e fazer de tudo pra te absolver, só pra que seja a sua alma a ser coletada no lugar da do seu irmão. Espero ter sido claro.
- S-sim... – Assentiu o réu com os olhos arregalados.
O relógio finalmente acionou o último alarme, o que relatava os dez minutos finais da invocação. O Juiz abriu uma tela holográfica em sua mesa onde receberia questionamento dos Jurados para fazer as perguntas em nome deles, porém, nenhuma pergunta surgiu em seu painel.
- Diante da ausência de inquirições pelo Conselho de Sentença, declaro encerrado este depoimento. – Declarou o Juiz Valadares batendo seu martelo em definitivo.
Mesmo com algum tempo remanescente, o Oficial de Justiça que transpirava não só pela deficiência do ar-condicionado, mas como pelo esforço em manter o espírito de Júlio contido, finalmente pode recitar o encantamento que dispersava o fantasma.
- André seu idiota! A prisão vai acabar com um inútil como você! Lá você não vai sobreviver um dia! – Berrou o espírito de Júlio indignado.
Júlio começou a sentir a coesão de sua manifestação física desaparecendo como fumaça. O Vínculo estava perdendo força e logo se tornaria apenas um relógio normal dentro de uma caixa de chumbo e a expressão do fantasma, até então furiosa, mudou para o mais puro terror. Não houve uma explosão, apenas um suspiro cansado e o ectoplasma da vítima se desfez em volutas de fumaça cinza que pareciam ser sugadas para dentro da caixa debaixo da cadeira que ficava dentro do círculo de sal.
O silêncio no plenário foi absoluto por alguns momentos até novamente o Magistrado interrompê-lo.
- A Defesa tem testemunhas? – Interrogou o Juiz Valadares.
- Quero ouvir apenas o réu, Excelência. – Declarou Murilo de pronto.
A sessão foi interrompida apenas o suficiente para que a caixa de chumbo fosse removida da cadeira das testemunhas, o círculo de sal grosso e as runas fossem limpas. Quando a sessão foi reiniciada, André já estava sentado do banco das testemunhas e Murilo já estava próximo dele.
- Com a palavra a Defesa. – Afirmou o Juiz.
- André Ferraz, no dia 15 de dezembro, por que você foi ao escritório do seu irmão? – Inquiriu o advogado como quem já sabia a resposta daquela pergunta.
- Eu não sabia de nada disso, de contrato nenhum... – Falou o réu com certa confusão nas suas palavras. – Ele estava rindo! Disse que ia vender a empresa e que ia torrar toda o dinheiro dele! Ele me chamou de fracassado e falou que eu não tinha a coragem pra fazer o que era preciso, que ele tinha salvado nossa família da ruína há cinco anos e que agora ia finalmente colher os louros. Ele nem olhava pra mim, a faca estava na mesa... Eu só queria que ele parasse de rir e de me inferiorizar...
- O que você fez com a faca, André? – Insistiu Murilo.
- Eu... – Disse o rapaz ficando com os olhos vermelhos e marejados. – Eu o matei.
- Sem mais, Excelência. – Disse o advogado voltando para o seu lugar.
- Ministério Público? – Indagou o Juiz voltando-se para a Promotora.
- O MP... – Helena fez uma pausa sem nem se levantar de seu lugar. – O MP não tem perguntas e reitera a soberania da confissão.
- Seguiremos então para as Alegações Finais. – Determinou o Juiz Valadares batendo seu martelo para organizar a sessão cujas vozes das conversas paralelas voltavam a se elevar. – Primeiramente o Ministério Público fará uso da palavra pelo tempo regulamentar e, na sequência, a Defesa.

A audiência ainda seguiu por horas com as alegações finais e o voto do Conselho de Sentença. Quando todo aquele procedimento tinha finalizado, o Juiz Valadares retornou ao plenário acompanhado dos Jurados, da Promotora e do Advogado para finalmente proferir a Sentença.
- Todos de pé. – Determinou o Magistrado antes de começar uma longa leitura com os expoentes dos motivos da condenação e quesitos formulados ao Conselho de Sentença para que respondessem positiva ou negativamente até que passou para a conclusão. – Ante o exposto e de acordo com a soberania das decisões do Júri, reconhece-se por unanimidade a materialidade delitiva pelo crime de homicídio, reconhecendo ainda o atenuante da Confissão, razão pela qual se julga procedente o pleito Ministerial para condenar o réu André Ferraz à pena de doze anos de reclusão em regime inicialmente fechado.
O martelo bateu na mesa. O som foi definitivo, nítido e alto.
Policiais Militares se aproximaram para algemar André. O rapaz não resistiu. Ele parecia mais leve, como se tivesse tirado uma armadura de chumbo dos ombros e antes de ser levado ele, uma última vez, se dirigiu ao seu advogado.
- Doutor? – André sussurrou. – Doze anos é muito tempo.
Murilo fechava sua pasta de couro logo depois de guardar seu tablet e sua garrafa de café já vazia, quando voltou seu olhar para o réu.
- Doze anos passam, André. Você tem prisão especial por ter nível superior, se você tiver bom comportamento, com a progressão de regime, sai em quatro anos. Faz alguma coisa de útil com esse tempo, vai ler livros, aprender um ofício, talvez escrever uma biografia. – Disse Murilo impaciente. – Pelo menos não vão coletar a sua alma para uma eternidade de torturas. Doze anos na prisão é melhor que ser condenado a eternidade no Inferno. Ganhamos o processo. Às vezes a solução é feia, mas é uma solução.

Do lado de fora do Fórum, já era noite e o tempo, como de costume, estava quente e úmido. O barulho do trânsito era uma música reconfortante depois do silêncio sepulcral do tribunal. Murilo desceu as escadarias de pedra, afrouxando a gravata. Seu motorista particular o esperava com o carro blindado ligado, mas Murilo fez um sinal para que esperasse mais um pouco.
Ele caminhou até um quiosque de metal na calçada, onde uma senhora vendia café e salgados duvidosos.
- Um café, Dona Maria. Preto. Sem açúcar. – Pediu Murilo como de costume. – Café tem que ser amargo como a vida.
- O dia foi difícil, Doutor? – Indagou a senhora, servindo o líquido fumegante em um copo de vidro.
- Difícil, Dona Maria. Difícil e cheio de fantasmas. – Respondeu o advogado ao pegar o café que ele prontamente levou a boca, mesmo estando fumegante.
Ele encostou-se no balcão, observando as luzes da cidade. Seu celular vibrou. A notificação do banco brilhou na tela: Transferência Recebida. Remetente: Ferraz Construtora. O valor era bom o bastante para que ele se aposentasse e vivesse de renda com alguma aplicação de banco, mas tudo que ele fez foi apontar um salgado na estufa e pedir para viagem, depois, olhou o prédio do Fórum com sua arquitetura brutal onde mortos eram atrapalhados em seu descanso final todos os dias para prestar depoimentos.
- Amanhã tem mais – Murilo murmurou para si mesmo enquanto terminava o seu café.







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